Breath of Fire 4 e o Sétimo Hóspede Maldito

Eu nunca tive um computador de última geração. Também nunca estive “a par” com a tecnologia de jogos, no sentido de não ter o videogame atual. Eu jogava no Mega Drive enquanto jogavam Final Fantasy 8 e tive um GameCube quando Playstation 3 estava no auge. Hoje as coisas se mantém mais ou menos da mesma forma. Então, quando esses tempos bateu uma vontade gigante de jogar um “jogo de exploração”, não pude pegar Demon Souls, nem Dark Souls ou BloodBorne. Se a vontade era só explorar, eu podia ir atrás de Dear Esther ou Everybody’s Gone to the Rapture,

Owlboy e a Sociologia

Owlboy é bom pra cacete. Até semana que vem, não esqueçam de curtir e se inscrev

KOF e Caminhadas na Praia

Eu nunca fui muito bom em jogos de luta (ou jogos em geral). Meus amigos sempre jogaram muito e muito bem, fazendo várias maratonas de jogatina que eu, normalmente, não participava. Ansioso por tomar parte nas atividades, eu acabava pesquisando em casa sobre o jogo, como se isso fosse, de alguma forma, me fazer jogar bem. É bem patético, eu sei. Mas nessas pesquisas eu acabei descobrindo que os criadores dos jogos colocavam muitos detalhes que, quase sempre, não eram percebidos. Coisas como:

Kudos 2 e o Jogo da Vida

Kudos2Banner

Quem nunca se perguntou se fez bem em tomar determinados rumos na vida? Quem nunca ponderou sobre isso, tipo depois de assistir Efeito Borboleta? E se você fizesse uma promessa a si mesmo de resolver tudo de uma vez por todas? E estipulasse um prazo de dez anos pra isso? Cabe mais alguma pergunta nesse parágrafo? Aparentemente sim. Você duvidava?

(Pra tirar isso do caminho, “Kudos” é uma gíria em inglês para “culhões”.)

Same Shit, Day by Day

Kudos 2 é um jogo de decisões. Você cria seu personagem e, ao longo de dez anos, tomará decisões sobre rumos de carreira, laços de amizade, como cuidar da sua saúde… Essas coisas. O desafio é: Você só pode fazer UMA atividade por dia. Parece que não é nada demais, mas é agonizante. Mais sobre isso logo adiante.

O jogo é bem leve (e barato!) e sua interface é bem clara. Sabendo inglês, não vão haver barreiras. A coisa segue bem como se fosse um exemplar de The Sims, mas hardcore. Poderia dizer que é um “The Sims com culhões”? Sim, poderia. Mas não vou, essa é fácil demais.

Por favor, né. Eu nivelo minhas piadas por alto.

Por favor, né. Eu nivelo minhas piadas por alto.

Se você jogar com preguiça, simplesmente ficar vendo os dias passarem e realizando ações automáticas (tipo aqueles dias chatos na vida real), o jogo pode ficar bem tedioso. Mas dá pra aproveitar bastante ao prestar atenção nos pequenos detalhes, tipo a alegria de concluir um curso, passear com o cachorro ou finalmente ter dinheiro pra convidar aquela gatinha pro teatro. Ei, tipo a vida real.

Existem diversos quesitos a serem trabalhados e vários aspectos de sua vida que podem ficar bons ou ruins, mas que nunca gerarão um game over. Seu personagem pode continuar trabalhando e estudando, mesmo que esteja completamente infeliz. Você pode ver todos seus amigos se afastarem e continuar levando sua vida solitária. Quem sabe você não conhece alguém novo dando uma volta no parque com o cachorro? Tudo acaba  sempre voltando para o poder de suas escolhas.

Vejamos um estudo de caso:

Holly sh…

(Tá, essa foi bem fácil. Esquece aquele papo de nível.)

Pra começar, girei a roleta e criei um personagem aleatório. Nascia Holly Reid. No primeiro dia no seu novo emprego, como atendente de uma lanchonete, Holly decidiu que era hora de dar um rumo pra sua vida. Dez anos. Em dez anos ela seria uma profissional plena e realizada. Já que todo mundo dizia que ela tinha cara de advogada, era nisso que ela investiria seu tempo.

Lawyer Material.

Lawyer Material.

Ao chegar em casa naquela noite, Holly se inscreveu no curso de Leis Básicas (às Sextas-feiras). Incapaz de fazer qualquer outra coisa no dia, nem mesmo tomar banho, decidiu dormir. No dia seguinte, foi trabalhar caminhando, afinal ela sabia que os dias de estudo ininterrupto talvez não permitissem que se cuidasse. Ao chegar em casa à noite, resolveu que seria uma boa ideia se matricular em cursos de meditação e kick-boxing, pra se manter saudável. Um de seus amigos a ligou, chamando-a para o cinema. Ela disse “É claro, vou me inscrever em uns cursos aqui e apareço.”

Qual não foi a sua surpresa ao ver que após efetuar a matrícula em Meditação (às Quintas-feiras), sua única escolha era ir dormir. Chateado, seu amigo ligou na noite seguinte para reclamar do “abandono”. Holly nem sequer conseguiu avisá-lo que não poderia aparecer. Entre ver TV e ficar olhando para a parede (sério), ela decidiu correr um pouco. E mais uma vez teve de ir dormir sem tomar banho.

As semanas foram passando, Holly fazendo malabarismo para conseguir conciliar seus hobbies (livros e correr) com seus estudos. Acabou negligenciando seus amigos e viu-se mantendo contato com apenas uma pessoa. Determinada a não ficar sozinha no mundo, começou a perder algumas aulas. A princípio foi apenas uma, “que mal faria? A Thereza me ligou dizendo que tá passando por momentos difíceis. Depois eu recupero a matéria.” Mas aí, Holly foi entrando para o círculo de amizade de Thereza e muitos outros compromissos tiveram de ser desmarcados para tentar saciar sua ânsia de se socializar.

Dois anos se passaram e o máximo de progresso que Holly tinha feito em sua carreira era ter saído da lanchonete e virado caixa de supermercado. Era hora de dar um basta nisso tudo. Ela foi ao shopping, em troca de tomar banho ou limpar a casa. Comprou livros de Direito, um cachorro e um estoque de ração. Os dias foram passando e os “amigos” foram desaparecendo. Aparentemente, é impossível compreender que uma pessoa queira se dedicar à carreira. Enfim, Holly já não se importava com eles. A única que restou foi, novamente, Thereza. Uma amiga de verdade, no final das contas.

Em poucas semanas de dedicação, Holly conseguiu concluir o curso básico. Se preparou durante a semana, correndo e malhando pra melhorar sua autoestima. Foi ao cinema com Thereza para desanuviar a cabeça e na manhã seguinte, fez uma entrevista de emprego para advogada júnior.

Dois dias de agonia depois, ela recebeu a resposta. Estava contratada e começaria imediatamente. Sua alegria nunca foi tão grande! Finalmente! Aproveitou e se matriculou em Direito Intermediário, já pensando em sua carreira. Finalmente encontrara o caminho para a felicidade.

Só que…

Rotina!

Ela nunca esteve tão deprimida!

A rotina de trabalho era estressante e desanimadora. O ápice de animação em seu emprego eram os treinamentos mensais contra incêndio. A solução que Holly encontrou foi arranjar mais hobbies. Kung-fu. Aulas de canto. Francês. Italiano. Cozinhar. Mas isso fazia sentido? Estar em um emprego apenas para encontrar meios de se distrair dele?

O salário era excelente, mas o “preço” que estava cobrando dela estava começando a parecer grande demais. Holly concluiu o curso Intermediário e conseguiu um emprego melhor. Descobriu que continuava tedioso. Foi promovida duas vezes e nada mudou. Estava com uma gorda conta no banco, mas um déficit enorme no peito. Então ela tomou uma decisão naquele momento.

Daria um rumo à sua vida. Cinco anos. Em cinco anos ela faria tudo certo e… E…

sad-keanu

De volta à vida real.

Kudos 2 tem seus defeitos sim. Essa dificuldade absurda de podermos tomar apenas uma decisão por dia (e quatro aos finais de semana) deixa qualquer um estressado! E também é irritante a impossibilidade de conversar com um “amigo ignorado”, quando ele tem o trabalho de te ligar pra dizer que nunca mais vai falar com você. Mas pro ódio passar, basta lembrar que é só um jogo. E jogos têm de ter seus obstáculos.

Eu não vou mentir pra ninguém, eu prefiro os “jogos blockbuster”. Os chamados “Triple A”, tipo Mass Effect, Kingdom Hearts, Final Fantasy, Metal Gear, Dragon Age, Skyrim… Mas esses jogos mais “conceituais” têm sim um espaço reservado no meu coração.

Bem aqui.

Bem aqui.

Em nenhum momento, aparece uma janela de texto te incentivando a levar uma vida plena. Tirando uma breve descrição no canto da tela, com suas principais características (“Holly é uma culta e saudável advogada” ou “Holly é uma deprimida advogada solitária”), não existem indicações de caminhos a serem tomados. Por conta própria você começa a buscar soluções. São coisas que você precisa prestar atenção pra saber quais aspectos de seu personagem você está negligenciando, ou quais áreas você precisa investir mais tempo para levar uma vida mais plena.

Ei, tipo na vida real. Basta coragem pra encarar da mesma forma.

Ah, e como ficou Holly?

Lembra aquela aula de canto que ela fazia? E que ela era meio fanática por correr? Ela acabou entrando pra uma academia e ficando musculosa. Aproveitou e fez um curso de atuação e ganhou o papel de uma amazona numa ópera, deixando a advocacia pra lá. O salário era menos de um quarto do que ganhava, mas Holly voltava todo dia feliz e satisfeita pra casa.

Quando o prazo de dez anos terminou, ela estava a caminho de ganhar o papel principal da peça, enquanto se especializava em atuação romântica.

Thereza se amarrava em ver romances no cinema.

Pulo Duplo é uma coluna semanal, comandada pelo Rafero, e trata sobre as coisas que só os Games trazem para nossa vida.

About The Author

  • Jackson Dutra

    Culhões 2?

    Hum, ideia interessante. Vamos ver como me saio nesse “Sims”.
    Pergunta prática(afinal a porcaria de lista à jogar é enorme): Quanto tempo de jogo pra fechar?

    Temos costumes semelhantes em termos de Games, afinal depois de conhecer o que alguns Indies podem fazer (SIM, SIM!!!! Estou falando de Braid que foi o meu marco zero nos Indies), também reservo um espaço especial pra eles.

    • Boa pergunta! Faltou informar no texto! Eu fechei em uma tarde, mas porque eu fui sem parar, o que não acho que seja recomendável. Mas é curtinho sim.
      Yeah, Braid \o/