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Eu nunca tive um computador de última geração. Também nunca estive “a par” com a tecnologia de jogos, no sentido de não ter o videogame atual. Eu jogava no Mega Drive enquanto jogavam Final Fantasy 8 e tive um GameCube quando Playstation 3 estava no auge. Hoje as coisas se mantém mais ou menos da mesma forma. Então, quando esses tempos bateu uma vontade gigante de jogar um “jogo de exploração”, não pude pegar Demon Souls, nem Dark Souls ou BloodBorne. Se a vontade era só explorar, eu podia ir atrás de Dear Esther ou Everybody’s Gone to the Rapture,

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Eu nunca fui muito bom em jogos de luta (ou jogos em geral). Meus amigos sempre jogaram muito e muito bem, fazendo várias maratonas de jogatina que eu, normalmente, não participava. Ansioso por tomar parte nas atividades, eu acabava pesquisando em casa sobre o jogo, como se isso fosse, de alguma forma, me fazer jogar bem. É bem patético, eu sei. Mas nessas pesquisas eu acabei descobrindo que os criadores dos jogos colocavam muitos detalhes que, quase sempre, não eram percebidos. Coisas como:

Mass Effect e Mary Sue

PuloDuplo10Z

Ao longo das publicações dessa coluna, eu citei Mass Effect algumas vezes (aqui e aqui). Sem dúvidas é meu jogo favorito, a maior fonte de emoções e diversão que já tive em games mas eu preciso me segurar, senão vou falar dele toda semana e só vou soltar elogios. Então hoje eu quero analisar, junto com vocês, um aspecto muito comum nos jogos de hoje (e em algumas histórias de outras mídias também).

É o efeito Mary Sue.

Quem?

Mary Sue nasceu em uma fan fiction satírica de Star Trek, láaaaá em 1973. Nela, Mary Sue, a mais jovem tenente da Frota Estelar – apenas quinze anos e meio – impressiona a todos com suas habilidades inigualáveis em todas as iniciativas que toma. Pilota melhor que todos e atira melhor também. É mais inteligente que Spock e uma melhor líder que Kirk. E perdoem-me a falta de mais referências, porque meus conhecimentos de Star Trek deixam muito a desejar.

Tripulação clássica.

Tripulação clássica.

Hoje em dia, “Mary Sue” é um termo depreciativo, indicando histórias onde o autor coloca a si mesmo, por completo ou em partes, em um protagonista. O termo também define que esse protagonista será mais apto e capaz do que todos a seu redor. É muito comum em fan fictions, onde os fãs anseiam por viver ao lado de seus heróis ou interesses românticos fictícios, mas também vemos Mary Sue’s em diversas obras por aí. Pra não me estender muito na definição e falar logo do jogo, entendam que Bella, da saga Crepúsculo, é um ótimo exemplo de Mary Sue. Uma protagonista sem graça que, sem explicações ou motivos, é o centro das atenções de todos os outros personagens, do vampiro brilhoso à guilda de vampiros assassinos e centenários (e 50 Tons de Cinzas nasceu de um fanfic de Crepúsculo, que a autora mudou os nomes e retirou os elementos sobrenaturais ao enviar para a editora. Sim, sério).

Agora, partindo desse princípio…

E se eu te dissesse que…

Mass Effect conta a história do Comandante Shepard, primeiro humano Spectre (tipo um Jedi) da Galáxia que precisa parar um Spectre traidor de condenar toda a vida conhecida, depois se aliar a um grupo terrorista e reunir uma equipe disposta a partir numa missão suicida até o covil dos Ceifadores, e finalmente defender a Terra e o resto do Universo, enfrentando os Ceifadores praticamente na mão. Nessa ordem.

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Durante as missões, conhecemos mais sobre os companheiros de Shepard, a bordo da sensacional nave Normandy SR1 (e depois na Normandy SR2). Temos ladrões e assassinos. Paladinos intergaláticos (sério) e soldados que colocaram seu dever acima das leis. Jogadores de cartas e o melhor piloto da galáxia.

E, tirando o piloto, TODOS eles são superados pelas habilidades incomparáveis de Shepard. Agora, eu pergunto: Isso é realmente necessário? Na literatura e nos filmes, todos sentimos mais afeição por personagens falhos, que sofram e lutem para alcançar seus objetivos. É muito difícil simpatizar por “chatos perfeitos”, que nunca erram, nunca falham e nunca perdem. Em jogos precisa ser diferente?

– O que me deixa puto é que eu apertei o botão, cara!

Digamos que um chefão em uma fase específica não possa ser derrotado, porque a história do jogo determina assim. Não importa quão rápido você seja no gatilho, quão ágil você esquive ou quão evoluída estiver a sua espada. Vai ser frustrante, vai ser desesperador e não vai ser fácil esquecer o gosto amargo da derrota. Talvez você até largue o controle e vá procurar algum outro jogo, ou ir assistir um filme ou sei lá, alguma maluquice tipo sair de casa e ir conversar com pessoas.

Eu hein.

Eu hein.

Ou então vai ser um momento que nunca, NUNCA, vai sair da sua cabeça!

Megaman X seria tão maneiro se você não sentisse vontade de atropelar o puto do Vile e tivesse as sensação de estar cada vez mais pronto a cada peça de armadura coletada? Os últimos momentos de Final Fantasy Crisis Core seriam tão memoráveis se Zax conseguisse se safar? Você teria tanto ódio do Rei em Fable 3, se existisse maneira de salvar ambos seu amigo e o povo?

– Sou o melhor no que faço, xará.

Aí, principalmente em RPG’s eletrônicos ocidentais, alguém decidiu que um personagem sem falhas é melhor. “Sei lá, vai que o loser perde o interesse? Ele já não consegue fazer nada da vida mesmo, pelo menos o avatar dele nesse mundo tem que ser o melhor!” Não há necessidade disso, gente. O Shepard não precisa ser o melhor atirador, jogador de poker, psicólogo, estrategista, amante, corredor, advogado… Todos sabemos separar as vitórias da vida dos achievements dos jogos.

... Né?

… Né?

O que parece é que os criadores acharam que para ser o líder, o Shepard teria que ser o senhor perfeição. O melhor exemplar da raça, o imbatível e inderrotável. E um líder não precisa dessas coisas. Por exemplo:

Eu era muito novo na primeira vez que eu joguei o lendário X-Men 2 de Mega Drive. O pouco de quadrinhos que eu conhecia era Batman e Homem-Aranha e o único dos X-Men que eu conhecia era o Wolverine. Daí eu estranhei pra cacete o Ciclope. Lembro de perguntar pro meu irmão (catorze anos mais velho) o por quê de terem colocado um personagem “tão inútil” no jogo, já que quase todo mundo pulava mais alto e era mais forte que ele. Ele me respondeu:
“O Ciclope é um líder.”

- Ops, my awesomeness is overflowing.

– Ops, my awesomeness is overflowing.

Eu fiquei muitos anos sem entender o que ele quis dizer com isso. Muitos mesmo. O Ciclope é corajoso, leal e determinado. Ele é daquele tipo de gente que fica do seu lado e nunca desiste de você, mesmo que você já tenha desistido faz tempo. Ele não precisa ser o mais habilidoso em campo, nem mesmo precisa ser amigo de todos no grupo. Mas sem ele lá, vai ser difícil as coisas darem certo. O Ciclope, nas mãos de roteiristas competentes, é um excelente personagem. O melhor na minha opinião e eu acho que aquele momento com meu irmão só influencia 82,3% disso.

Mas aí, os fãs decidiram que o Wolverine e a Jean Grey combinavam mais e o Ciclope virou um bundão.

E tem gente que reclama que a Bioware não devia reescrever o final de Mass Effect, ante as reclamações e ameaças de morte aos criadores.

Vai entender.

Pulo Duplo é uma coluna semanal, comandada pelo Rafero, e trata sobre as coisas que só os Games trazem para nossa vida.

About The Author

  • Adele

    Hahahahhaha!!! ” Ops, my awesomeness is overflowing” Adoro!!! Eu não posso criticar muito isso pq meu jogador do winning eleven era like a fucking Mary Sue!!! hahahhahahaha!!!

    • Caraca, Winning Eleven. Velharia Gamer é com o Samir, noiva hahaha

      • Adele

        #chatiada 🙁 hahahahhahahahaha!!!

  • Jackson Dutra

    Hum…

    Nesse momento adoro estou aprendendo a adorar mais ainda RPGs eletrônicos, principalmente os ocidentais.
    Joguei Mass Effect depois de aconselhado pelo mesmo Rafero aí de cima e na minha história, meu Shepard não foi tão Mary Sue assim:
    Não era o melhor Biótico, não era o melhor combatente corpo a corpo, não jogava poker.
    Mas sim.. eu ganhei do Garrus na disputa de sniper, mas putz…. eu era um Infiltrador (sniper)
    E eu era Lider.

    Bom… Histórias diferentes de Mass Effect a parte, concordo sim que as Mary Sue existem e muito por aí e não deveriam, pelo menos não pra mim. Também me interesso mais por personagens falhos (mais humanos).

    • Hahaha seu Shepard sofria de depressão, cara!